terça-feira, 19 de março de 2013

FORÇA À XÁVEGA - PORTUGAL


xávega, não a matem

a xávega nas estradas de portugal
a xávega nas estradas de portugal
não há muitos dias deparei-me, no quiosque de uma estação de serviço, com um exemplar do mapa de estradas de portugal, 2013, e que tinha no rosto a foto anexa.
o barco, s. paio, foi um dos últimos barcos movido só a remos da praia da torreira e um dos primeiros a utilizar motor (o outro foi o óscar miguel, do arrais joão da calada). o proprietário era o arrais manel fumante, de seu nome manuel maria da cunha, e a companha terá trabalhado até por volta de 1995 – segundo informações de joão da calada.
é este o portugal onde vivo. no momento em que o governo, com a informação muito subtilmente passada na comunicação social de que irá deixar de ser possível comercializar peixe miúdo, nomeadamente o jaquinzinho ou carapau pipi, decreta a condenação desta arte de pesca, a sua imagem é utilizada para promover o país.
a xávega, embora já sem os bois, continua a ser uma arte de pesca praticada num único país do mundo: portugal. a beleza e a dureza da faina fazem parte da nossa memória colectiva e são um emblema dos pescadores portugueses e de todo um povo.
obedecendo a todas as normas legais, nacionais e europeias, a malhagem das redes da xávega continua a trazer carapau com tamanho inferior ao determinado pela união europeia para a costa atlântica, muito maior que o permitido para o mediterrâneo – nós pescamos carapau no atlântico e os espanhóis no mediterrâneo !!!!!!!!!! (não).
não querendo aqui falar de outras embarcações que se dedicam, ao longo da costa e ao largo, à pesca do carapau, seria bom dizer que o carapau miúdo capturado pelas xávegas, tem um defeito: é visível, fica ali na areia aos olhos de quem por perto esteja e dos fiscais atentos. já os do alto ……
sempre foi tradição entre os arrais da xávega, até para salvaguardar a sua sobrevivência, que, se no primeiro lanço do dia só viesse carapau miúdo, não se faria mais nenhum lanço até depois do almoço, e que se se voltasse a repetir a abundância do mesmo carapau, a pesca nesse dia era suspensa. o peixe era vendido e, embora não desse muito, sempre dava algum para a companha.
em 2012, sabe-se lá porquê, as autoridades resolveram começar a exercer uma fiscalização exacerbada em todas as praias onde ainda existem companhas de xávega e a controlar de forma apertada os tamanhos do carapau – tudo o que fosse menos de 12cm tinha de ser enterrado na areia, deitado ao mar, ou, se apreendido, depois de aplicadas as respectivas coimas, lixiviado e destruído.
note-se que estamos muito acima do tamanho dos jaquinzinhos e na dimensão do carapau que “habitualmente” é capturado pelas companhas, impedir a sua comercialização é impedir a manutenção da xávega como arte de pesca e forma de subsistência de muitas famílias.
com tanta gente a passar fome, isto é no mínimo um atentado à consciência de qualquer um. ainda se o peixe ao ser devolvido ao mar continuasse vivo…. mas tal é impossível: peixe na praia é peixe morto ou condenado a tal.
mas, nas grandes superfícies, lá estão à venda os jaquinzinhos! claro que com etiqueta espanhola, como a medida no mediterrâneo é menor…..
dizem alguns que a xávega, ao efectuar estas capturas, põe em causa a sustentabilidade da fileira do carapau na nossa zona de pesca exlusiva, mas se nem sequer esgotámos, em 2012, a quota imposta pela união europeia para o carapau, como é possível que a sua sustentabilidade esteja em causa?
a associação portuguesa de xávega, criada em novembro de 2012, que representa todas as companhas da nossa costa, tem vindo a desenvolver iniciativas, junto do governo e do parlamento, para que esta situação seja alterada e se mantenha a capacidade de subsistência desta forma secular de pesca e uma das maiores atracções turísticas das praias da costa ocidental portuguesa.
é pois tempo de apoiar todas as acções que conduzam a uma reavaliação das normas aplicadas às capturas da xávega e deixar para outras calendas as discussões teóricas sobre designações de artes e barcos.
enquanto descendente de pescadores da xávega (ou chamem-lhe o que quiserem) e admirador destes homens e mulheres que teimam, sem qualquer apoio, em continuar a ganhar o pão com os saberes herdados dos seus antepassados, queria deixar aqui o meu apelo a todos os que andam distraídos em guerras de emails e outras, sobre denominações e terminologias, que o importante neste momento não é de como se chama, é de como se continua.
diria um pescador: quantas vezes mais fácil é defrontar o mar do que convencer os homens

dos dias - (ria de aveiro, portugal)

na solidão a beleza da ria
na solidão a beleza da ria

são curtos e lentos
os passos
cansados de tanto

o tempo é
a distância máxima
entre a voz e o
silêncio

caminhamos

(António José Cravo)

sábado, 23 de junho de 2012

Mangues do Rio Grande (IV)


 É PRECISO PROTEGÊ-LOS, RESPEITÁ-LOS, PRESERVÁ-LOS 
Por
Leila Medeiros de Chiriboga

Mangues. Árvores da família das rizoforáceas que compõem a vegetação natural da floresta de manguezal, nativas de regiões tropicais das Américas, da África e da Ásia, em áreas alagadas pelas marés. Em suas copas, muitas espécies de aves nidificam, procriam, alimentam-se, descansam. São garças, socós, martins-pescadores, bem-te-vis, maçaricos...  

As árvores de mangue ocupam os ambientes aquáticos costeiros de estuários, lagoas e lagos, nas faixas entre marés, e determinam uma dinâmica de fixação de sedimentos com alto percentual de matéria orgânica. O manguezal é, portanto, uma comunidade altamente produtiva, um dos ecossistemas mais biodiversos do planeta, onde se aloja um grande número de espécies de seres vivos. Considerado berçário da vida marinha, esse bioma de incomparável beleza é um verdadeiro santuário ecológico para a reprodução de centenas de espécies de vida aquática. O manguezal garante-lhes alimento, proteção, condições de reprodução e crescimento, e é fonte de subsistência para inúmeras famílias de pescadores e marisqueiros, que catam espécies como caranguejos, sururus, siris, ostras e aratus. Os mangues contribuem para a sobrevivência de répteis e mamíferos, muitos deles integrantes das listas de espécies ameaçadas de extinção.

No Brasil, em toda a sua extensão, do Amapá a Santa Catarina, o manguezal constitui Área de Preservação Permanente (APP). Em solo brasileiro encontra-se a segunda maior área de mangue do mundo. Oitenta por cento estão no Nordeste. Contudo, apesar de protegido por lei, o ecossistema manguezal vem sendo devastado. Nos últimos anos, os manguezais brasileiros têm diminuído de forma significativa e alarmante.

 Mangue Canoé - Rio Ceará-Mirim

Ao longo do litoral potiguar, as florestas de manguezal distribuem-se em sete principais zonas estuarinas: Curimataú/Cunhaú, Nísia Floresta/Papeba/Guaraíra, Potengi, Ceará-Mirim, Guamaré/Galinhos, Açu e Apodi/Mossoró, além dos estuários pequenos como os dos rios Maxaranguape, Pirangi, Catu, Jundiaí, Guarapes e Camaragibe.

O Rio Grande do Norte é um dos estados do Nordeste com o maior índice de destruição desse bioma de valor inestimável. Os principais impactos ambientais identificados estão relacionados ao desmatamento dos mangues, à poluição dos estuários e lagoas e às atividades econômicas desenvolvidas na região. É certo que tais atividades são muito importantes para a economia e o desenvolvimento locais, pois são geradoras de emprego e renda. Mas é imprescindível que sejam realizadas de forma responsável, através de tecnologias sustentáveis, que garantam a preservação e a qualidade dos recursos ambientais, sendo também necessário que se promova a revitalização das áreas já degradadas.

Neste livro, Fernando Chiriboga busca retratar prioritariamente áreas ainda preservadas do manguezal potiguar. A beleza dos locais fotografados surpreende e emociona. E é essa a sua intenção: emocionar, revelar, sensibilizar, ressaltar a importância da preservação dos bosques de mangues remanescentes enquanto ainda há tempo.

Em sua riquíssima biodiversidade, os mangues nos dão vida, sustento, equilíbrio. Em justo reconhecimento, precisamos protegê-los, respeitá-los, preservá-los. Pelo bem de nós mesmos.

Mangues do Rio Grande (III)


O MANGUEZAL E SEUS SORTILÉGIOS

Por
Dorian Gray Caldas

Temos agora, do artista, fotógrafo, documentador Fernando Chiriboga, mais uma obra de arte, mais um livro que enriquece o patrimônio dos nossos registros culturais e artísticos: o manguezal. “Verde que te quero verde”. Compacto e complexo com a sua biodiversidade natural, de indescritíveis atalhos, galharias densas, fauna e flora próprias da sua natureza marinha, nas reservas que proporcionam as vidas obscuras dos seus usuários: moluscos, caranguejos, peixes, camarões. O sustento e a sobrevivência, o social e o comércio na reserva do seu criatório.

Fernando Chiriboga, com sua larga competência, registra, documenta, revela e enobrece esta biosfera marítima com seus ensaios fotográficos, com seu olho de poeta à semelhança de Saint-John Perse, o escritor do mar. Fernando Chiriboga conhece os sortilégios marinhos da nossa costa atlântica: Curimataú, Cunhaú, Potengi, Papeba, Guaraíra, Apodí, Guamaré, Galinhos. A vida de nossas marés. 

Fernando Chiriboga, com a sensibilidade que Deus lhe deu, fez também a redescoberta de nossas matas potiguares, seus encantos e complexidades, o Seridó e o Sertão de outros tempos e outros ancestrais, que nos olham do retrato. “Como dói”. As ondas e os ventos, as caiçaras dos rios gerais. Sítios arqueológicos, inscrições rupestres, a mão dos nossos antepassados, presença humana apontando para o futuro, o sangue ingênito da seta do guerreiro, a vida virtual que veio de longe, como um registro de aviso do Eclesiastes; a temporalidade humana.

Esse andino de voos altos, asas de albatroz, faz o difícil resgate, vontadoso e independente, viajando e interagindo, documentando e redescobrindo velhas tradições de nossas particularíssimas idiossincrasias. Margeando nosso litoral, diante destes jardins de manguezais do Atlântico nos permite a certeza da permanente eleição do seu talento.                                                                                
                                                                         
 Garça-branca

Mangues do Rio Grande (II)


MANGUES POTIGUARES
Vida e Marés

Por
José Roberto Bezerra de Medeiros

No ano em que celebra 50 anos de desenvolvimento das atividades de distribuição de energia elétrica no Estado do Rio Grande do Norte, a COSERN, alinhada às diretrizes de responsabilidade socioambiental e à política de sustentabilidade adotada pelo Grupo Neoenergia, ao patrocinar este projeto através da Lei Estadual Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura busca incentivar a preservação da rica biodiversidade potiguar.

Os mangues do extenso e belo litoral do Rio Grande do Norte, captados pelas experientes lentes de Fernando Chiriboga, são apresentados em seu esplendor nesta obra. As belas imagens, enriquecidas com informações sobre espécies da flora e da fauna nativas, tornam Mangues Potiguares – Vida e Marés uma obra essencial. Paisagens esplendorosas, reveladas sob diversos ângulos, mostram as riquezas da biodiversidade e do ecossistema de zonas estuarinas potiguares como Curimataú-Cunhaú, Potengi, Ceará–Mirim, Nísia Floresta- Papeba-Guaraíra, Apodi-Mossoró, Açu e Guamaré-Galinhos.

Por meio desta obra, convidamos os leitores a conhecerem aspectos relevantes dos belíssimos manguezais potiguares, estimulando-os na formação de uma consciência de preservação ambiental tão necessária nos dias atuais.                                                      

 
 Aratus

Mangues do Rio Grande (I)


Fernando Chiriboga, fotógrafo do livro "Mangues Potiguares: Vida e Marés"

Rio da Casqueira - Macau/RN
Por Felipe Félix

(...)

Neste livro, Fernando Chiriboga retrata áreas ainda preservadas do manguezal potiguar. A beleza dos locais fotografados surpreende e emociona. E é essa a sua intenção: emocionar, revelar, sensibilizar, ressaltar a importância da preservação dos bosques de mangues remanescentes enquanto ainda há tempo.

Nascido em Quito, nos Andes equatorianos, Fernando Chiriboga reside no Brasil desde 1985. Fotógrafo, designer gráfico e artista plástico, ao longo de sua carreira têm conquistado vários prêmios. Apaixonado por fotografia de natureza, aventura e paisagens urbanas. Já lançou "Luzes da Cidade", seu quinto livro,  “Matas Potiguares – Natureza e Surrealismo”, “Praias e Dunas – Rio Grande do Norte”, “Seridó – Paisagens de um Sertão Encantado” e “De Ondas e Ventos – Potiguares na imensidão do mar”.

Rio Piranhas-Açu

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Rio_Piranhas-A%C3%A7u_-_RN.jpg